(Prêmio no concurso nacional de poesia de Descalvado - ano 2002)
Minha infância
já vai longe
quando brincávamos de bola de meia
no campo riscado na rua de terra
eu, Leão, ele, Toninho Guerreiro
eu, Rivelino, ele, Pelé
eu marquei o gol, ele passou por cima da trave
e por cima da trave
passou a nossa infância.
Eu, Zorro, ele, Durango Kid, ela mais charmosa que Penélope
eu, Batman, ele, Robin, ela Mulher Gato
eu, Super Homem, ele, Homem Aranha, ela Mulher Maravilha
e nas teias da aranha
ficou presa a nossa infância.
O homem do sorvete
o homem do biju
o homem da verdura
o homem do carrinho de carne
o homem dos bois que iam pro matadouro
que iam cabisbaixos para o sacrifício
e nós corríamos de medo
e pela fresta da janela
olhávamos os bois passarem
os homens passaram
os bois passaram
a nossa infância passou.
Brincávamos de carrinho
o carrinho, lata de óleo
as rodas, tampinhas de refrigerante
a boneca, espiga de milho
o trenzinho, carretéis de linha
piuí, piuí, piuí,
lá vem o trem, lá vem o trem, lá vem o trem
piuí, piuí, piuí
lá vai o trem, lá vai o trem, lá vai o trem
e junto com o trem
foi a nossa infância...